FOI MESMO

COMO EU FUNDEI O PCC https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/jose-marcio-vulgo-geleiao-fundador-do-pcc-revisita-surgimento-da-faccao/index.htm#como-eu-fundei-o-pcc

Marcos acha que “Mocotó” não nasceu, foi achado, ainda bebê,
numa caixa de fazer concreto, em uma construção, e levado para casa por um pedreiro (ou empreiteiro) que o encontrou. O casal discutiu se o entregaria à polícia ou ao juizado de menores. Em seguida, no entanto, a mulher resolveu ficar com ele e o marido consentiu com a adoção. Recebeu muito carinho e orientação. Anos depois lhe contaram que era adotado, e ficou amando ainda mais seus pais adotivos.

Aos sete anos, foi colocado na escola: sentiu um verdadeiro trauma no primeiro dia, praticamente uma sensação de pânico. A professora foi muito acolhedora. Aos oito anos, passou para o segundo ano. As coisas começaram a mudar: conheceu seu grande amigo, Gaguinho, que morava com o pai e a madrasta. A mulher não gostava do menino e o obrigava a dormir em um pequeno cômodo, no fundo do quintal. Com o Gaguinho, seu “amigão”, Marcos começou a roubar garrafas e vendê-las em bares. Com o dinheiro, iam ao centro de São Paulo, compravam garapa e lanche, durante o horário de escola, voltando no final da aula.

À noite, enganava a mãe, que já estava dormindo, juntamente com os demais da casa (o pai e a irmã) e ia roubar garrafa junto com Gaguinho, de quem tinha muito dó. Tinha cerca de nove anos quando da primeira passagem pelo juizado de menores: apanhou muito, levou palmadas na mão, de “gente má” e chorou muito. Foi retirado pela mãe, que teve de apresentar documentos comprovando tê-lo sob sua responsabilidade. Ficou com pena do “amigão”, que continuou recolhido, só saindo três dias depois, mediante fuga. Marcos furtou dinheiro da mãe para comprar lanche para o “amigão” e comeram juntos. Daí foram novas, muitas passagens pelo juizado. Acabaram encaminhados para um internato distante.

Já no caminho apanharam muito (dos PMs). Levantavam às 4 da manhã, faziam educação física embaixo de pancadas. Às seis iam para a lavoura só de calção, descalços, no meio de brejos, cobras, ratos etc. Marcos não aguentou. Fugiu: uma aventura de medo, ferimentos, dor, frio e fome. Demorou uns dez dias para chegar a São Paulo e encontrar-se com a mãe. “No terceiro dia de minha fuga eu já estava mais seguro de mim”. Roubou roupas, leite e pão e matou a fome (e deu graças a Deus). A seguir, furtou uma bolsa de um carro, com 80 reais. Comprou pão, mortadela e cigarro. Depois, comprou roupa e conga. “Nesta altura, eu não lembrava mais de ninguém, só pensava em mim mesmo”.

Tomou um trem e chegou a São Paulo. Teve a sensação gostosa de uma grande vitória logo aos treze anos de idade. Foi procurar a mãe no seu serviço e foi recebido com carinho. Disse que não queria voltar para casa, por medo do pai. Preferiu ficar na casa de uma tia e a mãe consentiu. Fugiu da casa da tia. Foi de carona para Recife com um amigo. Foi mal recebido.

Voltou a São Paulo e foi acolhido com carinho em casa. Foi morar com uma mulher 15 anos mais velha, com a qual se deu muito bem sexualmente e de quem diz ainda gostar. Tinha mais ou menos 15 anos. Sua mãe lhe arrumou serviço (não disse a ela que a “moça” com quem morava era sua mulher). Foi morar com sua “chefe”, 10 anos mais velha que ele. Ela lhe dava praticamente tudo. Viveram juntos durante dois anos. Enjoou da convivência, separou-se e deixou o serviço. Voltou para a mãe, que sempre o recebia com carinho.

Disse a ela que preferia ir morar na favela com um amigo. A mãe tentou convencê-lo a não ir, mas no final, concordou – ele acha que ela acabava concordando porque queria vê-lo feliz. Na favela um amigo lhe apresentou “uns mano”. Daí veio a sequência: furtos, compra de revólver, DEIC. Apanhou muito, assinou diversos delitos, foi para a Casa de Detenção e começou sua vida de presidiário aos 18 anos de idade. Passou por muitos presídios, sendo mais de uma vez por Taubaté, que o deixou revoltado. Tornou-se líder. Fundou o “Primeiro Comando da Capital”, o PCC, que no início era só um time de futebol. Mais presídios no Paraná, Mato Grosso, Brasília e Rio de Janeiro. Desentendeu-se com outros líderes da “organização” criminosa e foi jurado de morte. Foi transferido para a penitenciária de Presidente Bernardes, onde se encontra.

Acaba de escrever uma carta ao diretor da carceragem do DEIC, agradecendo o “tratamento humano” que recebeu nos 15 dias que ficou detido na Capital. Com efeito, segundo o delegado que o interrogou, ao sair “Mocotó” parecia “mais leve, outra pessoa”.

Pedro Scuro, Sociologia Geral e Jurídica, A Era do Direito Cativo, 2019

Publicado por peddyscuro

“I wish Pedro to retain, and deepen, and continue to savor his commendable thoughtful and illusion-free, while understanding and forgiving, even if hardly ever reconciled, stance towards our human condition!” Zygmunt Bauman, professor emeritus of the universities of Leeds and Warsaw.

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