Lula e o redomoinho

“Os nossos são tempos de uma epidemia de cegos conduzidos por lunáticos”. Rei Lear, Ato IV, Cena 1

Sonhar com Redemoinho | Veja o Verdadeiro Significado - SONHAR

Na esteira da crise do sistema financeiro internacional (2007-2008) o então presidente do Brasil afirmava ao primeiro ministro britânico que o problema era o “comportamento irracional de banqueiros brancos de olhos azuis, que antes pareciam saber tudo sobre economia, mas agora demonstram que não sabem nada” (O Globo, 29/3/2009). Reprimenda dirigida à opinião pública europeia que se queixava dos imigrantes, que na verdade, segundo Lula, foram “as primeiras vítimas” da globalização que não lhes dera a sua parcela de desenvolvimento econômico e social.

Comentários considerados “bizarros” pelo Daily Mirror, que, para o Independent e o Daily Telegraph, causaram “constrangimento” na mídia que não tolerava seu primeiro ministro do Partido Trabalhista, e que desde então passou a encarar também o brasileiro desaforado com profundo ressentimento. Em boa parte por conta da postura dialética deste diante das crises do mundo moderno.

“Esta aqui”, por exemplo, disse ele, “dentre tantos benefícios propiciou a eleição de um homem negro [Barack Obama, primeiro afro-americano a ocupar o cargo de presidente dos Estados Unidos, de 2009 a 2017], algo nada insignificante. E ajudou também a eleger um metalúrgico [ele mesmo], um indígena na Bolívia [Evo Morales], Hugo Chavez na Venezuela e um bispo [Fernando Lugo] no Paraguai” (Conor Foley, ‘Good looking’ Lula’s revenge, The Guardian, 11/4/2009). Duas semanas antes, nesse mesmo jornal ele escrevia que “nenhum país tinha como o Brasil tanto interesse em reverter o impacto do aquecimento global com soluções que garantam nosso futuro comum, sem prejudicar a subsistência de milhões de pessoas empobrecidas que tiram o seu sustento da terra” (Luiz Inácio Lula da Silva, Green aims in the Amazon, The Guardian, 28/3/2009).

Por outro lado e justamente por conta do mal-estar de quem se acha ameaçado por “países desenvolvidos e países em desenvolvimento terem responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, a atitude conservadora passou a ser de sistemático assédio a governos democraticamente eleitos. Notadamente – nas palavras de um ilustre consultor de segurança nacional – governos de nações “suscetíveis à influência financeira e política de China, Rússia e outras potências regionais, como Brasil e Turquia – ainda que nenhuma delas possa reunir os quesitos de poder econômico, financeiro, tecnológico e militar necessários para herdar o protagonismo dos Estados Unidos” (Zbigniew Brzezinski, After America, Foreign Policy, 3/1/2012).

As consequências todos nós conhecemos. A começar com espetáculos de protestos de rua contra aumento de contas de luz (Bulgária), por 20 centavos a menos nas passagens de ônibus (Brasil), contra a construção de shopping center em um parque público (Turquia), contra taxar a Internet (Hungria), contra um projeto de anistia geral (Tailândia), contra grampo de telefones (Macedônia), por desobediência civil no pagamento de impostos (Moldávia), contra restrições à cobertura de mídia nas sessões do parlamento (Polônia), contra a recusa do governo de aceitar um empréstimo de 610 milhões de euros da União Europeia quando a Rússia oferecia 15 bilhões e gás mais barato (Ucrânia). Dessa tragicomédia o segundo ato foi a “luta contra a corrupção”, cujas nefastas implicações o mundo ainda sofre.

“Antes de todo esse assédio o mundo fora agitado com o fim da lua-de-mel das organizações multilaterais, Banco Mundial, FMI, etc., com ‘as forças do mercado’. Isso por conta das centenas de bilhões, provavelmente trilhões, de dólares de dinheiro público despejados para resgatar bancos e grandes corporações das consequências do livre-mercadismo” (Pedro Scuro, Luta anticorrupção: arca dos insensatos, Revista Sociologia Jurídica, 2018, nº 22-23).

Hoje em dia, ainda vítima de assédio, o combativo metalúrgico destaca o lado benfazejo da pandemia, um “monstro que está permitindo aos cegos enxergar que somente o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”. Como as causadas ao longo da nossa história por uma “elite canalha, predatória, que não permite alternância de poder”. Quase dois anos de estudo na prisão fizeram-no entender que fora “o primeiro do andar de baixo a sair na fotografia do poder”, e que só não foi “enforcado, esquartejado e salgado”, como tantos mártires da luta contra o colonialismo de sempre, porque se tornou “vítima de algo mais sofisticado, um fabricado processo de corrupção” (Lula e Mino Carta, entrevista ao vivo, http://www.youtube.com, 19/5/2020).

A reação da elite e seus fâmulos não se fez esperar. Na expectativa de mais um golpe militar e fazendo-se de tolos diante da extraordinária trajetória de Lula, comemoraram a fala como uma “escorregada” e reflexo da “diminuição da sua influência no cenário político”. Algo que acalentam como um sonho possível desde o início da tragicomédia.  

Na verdade, mais que um simples mito, ou seja, estória, indivíduo ou coisa fictícia, Lula é uma lenda que desde o passado as pessoas contam umas às outras e aceitam como verdade histórica. Nesse sentido, sua saga lembra homens e mulheres notáveis, do nosso e de outros povos, afligidos, porém libertos quando entenderam os motivos do seu sofrimento. Personagens cujo paradigma bíblico é Jó, homem reto, perseguido pelo “adversário” (ou “promotor”, ha-satan, em hebreu), vítima de injustiça a quem Deus “livra da sua aflição, e na opressão se revela aos seus ouvidos” (Livro de Jó, 36:15). A todos “Deus fala de dentro de um redemoinho” e mostra que o mal não é punição, mas fonte de conhecimento e disciplina moral.

Na literatura como na vida o redemoinho se manifesta constantemente. Por volta do ano 2.000 AC, no Egito antigo, serviu à sabedoria divina no diálogo de um homem comum com a sua própria alma acerca de situação desesperadora causada por anomia e quebra das condições morais da sociedade. Shakespeare escreveu que do ponto de vista dos deuses “somos como moscas para moleques maldosos: matam-nos por esporte” (Rei Lear, IV). Deus, por sua vez, parece preferir nos mostrar o quão ignorantes/ fracos/ despreparados somos diante dos poderes da natureza indomada e seus monstros (Livro de Jó, cap. 40 e 41), leviatãs do tipo elite, militares e políticos entreguistas, coronavírus. Aqui, o próprio Velho Testamento desmente (ou posterga) a conclusão de outro de seus livros: que a humanidade seria o ponto mais alto da criação, com poder de superar a tudo, seres ou eventos (Gênesis, 1:28). Diante disso, otimistas como Jó, Lula e eu continuamos a ter fé e paciência.

Publicado por peddyscuro

“I wish Pedro to retain, and deepen, and continue to savor his commendable thoughtful and illusion-free, while understanding and forgiving, even if hardly ever reconciled, stance towards our human condition!” Zygmunt Bauman, professor emeritus of the universities of Leeds and Warsaw.

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